Estudo revela que a malária moldou a distribuição dos primeiros humanos na África
23/04/2026
(Foto: Reprodução) Foto de longa exposição registra um mosquito — principal vetor da malária — em pleno voo.
Martin e Ondrej Pelanek
A história da expansão dos primeiros humanos pela África costuma ser contada como uma resposta às mudanças climáticas.
Um estudo publicado na última quarta-feira (22) na revista científica "Science Advances" mostra, contudo, que havia outro fator determinando onde esses grupos podiam viver: a malária.
A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Max Planck de Geoantropologia e da Universidade de Cambridge, demonstra que o parasita Plasmodium falciparum — responsável pela forma mais letal da doença — influenciou ativamente a distribuição de populações humanas na África Subsaariana entre 74 mil e 5 mil anos atrás.
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Esse período é anterior tanto à dispersão da espécie para outros continentes quanto ao início da agricultura.
Para chegar a essa conclusão, a equipe construiu modelos de distribuição de três complexos de mosquitos do gênero Anopheles, principais vetores da malária, e os combinou com modelos de paleoclima para reconstruir como essas espécies se espalharam à medida que o clima mudava ao longo de milênios.
Com dados epidemiológicos, os pesquisadores estimaram o risco de transmissão da malária em diferentes regiões e períodos e compararam esses mapas com uma reconstrução do habitat humano na mesma época, baseada em dados arqueológicos.
O padrão foi consistente: os humanos evitavam — ou simplesmente não conseguiam se estabelecer — em áreas com alto risco de transmissão da doença.
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Segundo o estudo, as consequências dessa dinâmica vão além da geografia. Evidências crescentes sugerem que a espécie humana não surgiu de um único berço africano, mas de interações entre populações espalhadas por diferentes partes do continente.
Ao separar esses grupos e limitar seus contatos, a malária teria influenciado então quando e onde essas populações se encontravam, se misturavam e trocavam genes — ajudando a criar a estrutura genética observada nos seres humanos modernos.
"Ao fragmentar as sociedades humanas pela paisagem, a malária contribuiu para a estrutura populacional que vemos hoje", disse o professor Andrea Manica, da Universidade de Cambridge e um dos autores sênior do estudo.
"O clima e as barreiras físicas não foram as únicas forças a determinar onde as populações humanas podiam viver."
O estudo também contraria uma ideia comum na literatura científica: a de que a malária só se tornou um problema grave com o advento da agricultura, que teria criado condições mais favoráveis para a proliferação dos mosquitos.
Os dados mostram que o risco de transmissão já era extremamente alto por volta de 13 mil anos atrás — antes do surgimento dos primeiros sistemas agropastoris.
"A doença raramente foi considerada um fator importante na pré-história mais remota da nossa espécie", disse a professora Eleanor Scerri, do Instituto Max Planck e também autora sênior.
"Nossa pesquisa muda essa narrativa e oferece um novo quadro para explorar o papel da doença na história profunda da humanidade."
A malária influenciou a formação do nicho humano na África Subsaariana ao longo de dezenas de milhares de anos.
Michela Leonardi
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